Um dia
descubro quem inventou a vida. Quem será que arquitetou afazeres tão
desprazerosos e incômodos? De que livro vieram obrigações angustiantes? Como
pode alguém viver sem pensar no que gosta? Que sentido tem em viver sem
identificação, sem empatia pelo trabalho, sem hobbies ativos, sem vontade
desinteressada? Sinceramente, estamos muito afastados de nós.
A
jornada humana é robótica. Pelo menos não para os hippies. Nem para alguns
andarilhos de estradas. Músicos. Bem, há exceções. Toda essa insatisfação é
minha e vem de uma negação da tal realidade imposta. Nem todos percebem, nem todos
se ferem como eu. Todo dia sangro. Acordo incrédulo, mesmo há tempos repetindo
a rotina. Durmo pensando que não fiz nada que gosto. Sinto que não vivi. Como é
isso pra você? Se eu perguntasse as coisas que você gosta de fazer, você me
responderia rapidamente? E se eu perguntar se você realmente as faz? Você deveria se perguntar isso e responder, ou pelo menos tentar de vez em quando.
Estou
convencido de que a vida nos pasteuriza. E reafirmo isso, diariamente, para não
deixar o nitrogênio me congelar de vez. Mas não adianta. A alma inquieta, corpo
inerte. Há quem diga que gosta do que faz. Gosta mesmo? Se fosse rico
acordaria cedo e analisaria um relatório de 400 linhas? Não sei viver sem amor.
Ainda luto, embora aprisionado.
Dizem os conselheiros que eu
posso me libertar, desde que me dedique. Vou ter que acordar ainda mais cedo,
dormir mais tarde, alternar tarefas do trabalho com estudo, etc. Ora, isso é a máquina
perfeita, é o suprassumo mecânico do ser humano. Temos mesmo de aceitar a vida.
Talvez eu desista. Todos nós vivemos melhor se aceitarmos este fardo impiedoso.
Já é um órgão e em breve tiraremos chapa dele e iremos ao doutor pedir – é claro
– um paliativo. Paliativos são nossos hobbies. São atividades que tiram um
pouco o peso e a dor do fardo. Até esquecemos. Essa é nossa diversão. Que bela
vida!
Triste, não? Eu diria
claustrofóbico. Se podemos escapar? Talvez. Temos a chave mas estamos doentes,
cobertos por um ferro duro. Temos de nos tratar, de retirar o vício de viver
roboticamente. Precisamos de médico, precisamos de cachoeiras e pássaros, precisamos
transformar o paliativo em fluido vital, combustível para sair do mundo de Oz. Respire.
- Acabou nossa consulta por aqui.
Te vejo semana que vem, às 20h30. Mês que vem aumenta o valor... Inflação, ok?
Fique bem. Até!
