terça-feira, 9 de agosto de 2016

Por Que Somos Robôs



                Um dia descubro quem inventou a vida. Quem será que arquitetou afazeres tão desprazerosos e incômodos? De que livro vieram obrigações angustiantes? Como pode alguém viver sem pensar no que gosta? Que sentido tem em viver sem identificação, sem empatia pelo trabalho, sem hobbies ativos, sem vontade desinteressada? Sinceramente, estamos muito afastados de nós.
                A jornada humana é robótica. Pelo menos não para os hippies. Nem para alguns andarilhos de estradas. Músicos. Bem, há exceções. Toda essa insatisfação é minha e vem de uma negação da  tal realidade imposta. Nem todos percebem, nem todos se ferem como eu. Todo dia sangro. Acordo incrédulo, mesmo há tempos repetindo a rotina. Durmo pensando que não fiz nada que gosto. Sinto que não vivi. Como é isso pra você? Se eu perguntasse as coisas que você gosta de fazer, você me responderia rapidamente? E se eu perguntar se você realmente as faz? Você deveria se perguntar isso e responder, ou pelo menos tentar de vez em quando.
                Estou convencido de que a vida nos pasteuriza. E reafirmo isso, diariamente, para não deixar o nitrogênio me congelar de vez. Mas não adianta. A alma inquieta, corpo inerte. Há quem diga que gosta do que faz. Gosta mesmo? Se fosse rico acordaria cedo e analisaria um relatório de 400 linhas? Não sei viver sem amor. Ainda luto, embora aprisionado.
Dizem os conselheiros que eu posso me libertar, desde que me dedique. Vou ter que acordar ainda mais cedo, dormir mais tarde, alternar tarefas do trabalho com estudo, etc. Ora, isso é a máquina perfeita, é o suprassumo mecânico do ser humano. Temos mesmo de aceitar a vida. Talvez eu desista. Todos nós vivemos melhor se aceitarmos este fardo impiedoso. Já é um órgão e em breve tiraremos chapa dele e iremos ao doutor pedir – é claro – um paliativo. Paliativos são nossos hobbies. São atividades que tiram um pouco o peso e a dor do fardo. Até esquecemos. Essa é nossa diversão. Que bela vida!
Triste, não? Eu diria claustrofóbico. Se podemos escapar? Talvez. Temos a chave mas estamos doentes, cobertos por um ferro duro. Temos de nos tratar, de retirar o vício de viver roboticamente. Precisamos de médico, precisamos de cachoeiras e pássaros, precisamos transformar o paliativo em fluido vital, combustível para sair do mundo de Oz. Respire.

- Acabou nossa consulta por aqui. Te vejo semana que vem, às 20h30. Mês que vem aumenta o valor... Inflação, ok? Fique bem. Até!